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À Prova do Corpo

Levantar. Andar. Sentar. Deitar. Nossos cotidianos são ritmados essas por ações aparentemente banais e inócuas, que incessamente se reiteram, se sucedem seguindo a pulsação do relógio e o decorrer dos dias. Por trás dessas repetições singelas se dissimulam uma coreografia normatizada por nossa sociedade que ensaiamos desde crianças. O mobiliário do dia-a-dia tem um protagonismo central nessa dança uma vez que ele sugere sub-reptícias etiquetas corporais. A adaptação e uniformização das posturas pelo mobiliário cotidiano é precisamente uma das premissas fundamentais na obra de Luciano Zanette.

De fato, o artista evidencia as estruturas de poder e submissão por trás das tipologias de mobiliário mais difundidas, que funcionam como ferramentas de contenção e adequação do corpo individual às normas e padrões de um corpo coletivo. Esse interesse já é latente em suas primeiras instalações, nas quais reconfigurava peças encontradas de mobiliário cotidiano investidos com uma certa carga afetiva.

Progressivamente, essa reflexão acerca dos condicionamentos insinuados por esses móveis foi se depurando e o artista começou a trabalhar com uma ideia mais abstrata e gráfica desse mobiliário em estruturas compostas e vazadas como as esculturas recentes do conjunto presente na mostra Objetos/Oblíquos. Apesar de tomarem forma de estruturas simplificadas e geometrizadas, as esculturas se referem às tipologias reconhecíveis de móveis que povoam nossas casas e escritórios: mesas, cadeiras, camas, entre outros. As composições de Zanette muitas vezes apresentam algum eixo deslocado ou um elemento que impossibilita a sua utilização, frustrando o apelo físico que esses móveis em tamanho real suscitam. É desnorteando o espectador, impossibilitando o uso desses objetos, que o artista aponta para nossas respostas corporais e automatismos escondidos diante desse mobiliário, assim como eles reverberam em valores e princípios difundidos na sociedade.

A cadeira usual, objeto recorrente no trabalho de Zanette, por exemplo, corresponde a um modo de sentar própriamente ocidental: o que implica uma postura na qual o tronco forma um ângulo reto com as coxas e, por sua vez, com os joelhos. No entanto, se trata apenas de uma entre outras fórmulas que existem em outras partes do mundo como sentar ajoelhado ou ainda de pernas cruzadas. Além do mais, essa cadeira, é sintomática da condição atual de crescente inatividade física e, por extensão, dos padrões de passividade que progressivamente imprime nos indivíduos [i].

Zanette se refere a essa contenção mental suscitada pela contenção física induzida pela posição sentada em Inscrição, escultura na qual uma cadeira de tamanho real parece contida em uma estrutura que denota um teto. A escultura sugere, por um lado, o conforto de uma casa, mas por outro, também um certo conformismo que essa comodidade pode ocasionar. Esse conforto domiciliar e sua relação com uma inércia conformista também é evocada em Estruturas do Hábito, que consiste em uma estrutura de aço vazada que resulta em um conglomerado de diferentes móveis: uma cama, cadeira, uma porta e um genuflexório. O espectador pode adentrar esse espaço da esfera privada, do quarto e da fé individual. O título é indicativo dos diferentes entendimentos do termo “estrutura” que permeiam os trabalhos do artista: a própria estrutura da escultura, a casa como metáfora de uma estrutura familiar, religiosa e social e, por fim, as estruturas comportamentais que esses diferentes agentes privilegiam.

A escultura Quatro Poderes é sintomática tanto da continuidade da reflexão sobre as diferentes implicações por trás do sentar e da cadeira, quanto de um direcionamento explicitamente político no trabalho recente de Luciano Zanette. A escultura consiste em quatro cadeiras equilibradas por uma de suas pernas é mais longa do que as outras. Cada perna prolongada é levemente inclinada de maneira a que as pernas das diferentes cadeiras se cruzem em um ponto, possibilitando um equilíbrio. Desta maneira, por estarem em altura e inclinadas, o uso das cadeiras fica impossibilitado. A altura e dificuldade de acesso remetem à história dessa peça de mobiliário, que originalmente e durante muito tempo era atribuída a figuras de poder político ou religioso, antes de se tornar uma peça standard de mobiliário no século XIX [ii]. As quatro cadeiras inacessíveis, que representam os poderes executivo, legislativo, judiciário e o da mídia, se apoiam uma na outra em uma configuração frágil, mas que ainda assim mantém o seu equilíbrio.

Para além das camadas e leituras políticas do trabalho recente de Zanette, dessas estruturas frias norteadas pelo que parecem linhas de força matemáticas e impessoais, parece sempre se desprender uma certa melancolia. De fato, as estruturas parecem suspensas em um estado de desequilíbrio, sem nenhum resquício de individualidade e na constante iminência da queda do conjunto. Talvez porque essas estruturas que ditam suas próprias regras resistem as resiliências e organicidades do corpo de cada indivíduo e que, em última instância, foram elaborados à prova dos corpos que as habitam.

Olivia Ardui
2015

[i] Peter Opsvik, Rethinking Sitting, New York, 2009. Capítulos: Our passive Present e Post-industrialized societies (p. 14-15).

[ii] Idem. Capítulo: The chair and the authority (p. 22-23).


Luciano Zanette, Estruturas do Hábito, 2015, aço e pintura eletrostática, 190 x 190 x 160 cm. Foto Filipe Berndt

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