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Luciano Zanette

Relação em Cadeira

2015

aço e pintura eletrostática

90 x 150 x 180 cm

Exposição Objetos/Oblíquos
SESC Osasco

Foto Filipe Berndt

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Capa_

O que resta de um encontro1:
Estâncias, distâncias, passagens

Para este lado do infinito, turvo finito, os cantos vazam, os cantos ocam, desprotegem, desguardam corpos.
Não confinam, confins.
Então…
Que a distância nos guarde

Descontinuidades, os planos não funcionam, as linhas não cercam. Marcam, mas falham, o olhar atravessa. O corpo através. Sem descanso. Estar só acompanhado. Desacompanhado. Só. Nhado. Des. Enhado. Separar sílabas, se parar fica. Então, sem parar, como se fraccionasse o átomo em palavra, pequenas experiências podem ocorrer, ou correr, escapar do nome, porque o nome prende.

Eu quero muito, o mínimo. Tenho grandiosidades com o pouco. Aqui sou o meu limite sobre Manoel2, aqui sou um termômetro e duas estátuas egípcias3. Madeira de construção. Linha de rumo. Depois farei melhor. Depois faço. Depois, depois, depois…

Estas peças como uma discrição (austeridade, qualidade de discreto, reservado) – descrição (traçado, delimitação, definição, exposição), descrever – descrer, ver. Ver para descrer. Ver para descrever, escrever. Desescrever, desver. Escrever para esquecer, e assim abrir espaços (na cabeça). Crânio último abrigo4. Lugar mínimo. Lugar de estar.

Para este lado do finito, descontinuidades. As paredes caem, as fronteiras linha. Passagem aberta, perigos possíveis. Te quero aqui para sempre… agora é sombra de desejo. Bandeira a meio-pau. O que resta deste encontro é sombra de meio tom. Absoluta finitude. Amargor escuro. Sombra dos dias, angústia das noites. Mesa jaula.

Breuer, Rietveld. A distância nos grade. Ofensas brandas, reverências ao vazio. Nenhum sonho é permitido aqui. Aqui eficiência. Não sou aqui. Me falta potência de ser aqui. Me falta.

Eu declino. Sou mais as desexatidões das casas de Ouro Preto. Pisos em declive, aclive, parede torta, porta morta. Camas vazias. Lugar Fantasma. Sombras em lombas, sombras queimadas. Coisa de Sombra. Caixas vazias. Vazios de crânio. Órbitas vazias. Medi- das de morte. Vazios de caixa, fins de saída. Continente, conforto, confronto. Objeto de contorno. O canto de espaço que me envolve. Dimensões do estar. O lugar de estar. Estou aqui. Não estou aqui. Eu passo.

Declino da eficiência, da produção em série, das lições de campeão. Rever valores.
Declino das estruturas de controle social. Declino do permitido, do não permitido. Consciência de norte, norte, norte. Molduras vazias, problemas portáteis. Monocromossomias. Não quero afirmar o mito de essência ou destino. A cultura é a régua, a arte a potência. A matemática vai salvar o mundo, a arte vai torná-lo suportável.

Liberdades condicionadas. Desencontros, desconversas, desconfortos. Cruzamentos, desolhares, deslocamentos, desolamentos, isolamentos. Contornos. Objeto lugar. Móvel-lugar. Casamínima.
Habitar o móvel.
Ainda Melancolia.

Deleuze nos livre!
Demorei para chegar aqui…
no meio.

Luciano Zanette
2012

Escrito montado entre meados de junho e agosto de 2012 SP, pensando nos trabalhos da primeira exposição individual na galeria Virgilio, em 12 de setembro de 2012 (a partir de anotações precedentes que acompanham desenhos de projetos). As notas de rodapé foram incluídas depois do escrito já constituído, para propiciar uma leitura mais ampla, e para não deixar de indicar leituras e contatos com autores fundamentais que permitiram a chegada neste ponto.

Notas

1 Proposição apresentada na forma de pergunta nas aulas do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais do Instituto de Artes da UFRGS por Edson Luiz André de Sousa (escritor, pesquisador, psicanalista e professor da pós- -graduação em psicologia social e institucional da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e do PPGAV do Instituto de Artes da UFRGS). Aqui proponho uma possível contribuição (reverberação) sobre a questão.

2 Manoel de Barros, poeta brasileiro. Manoel escreve sobre as coisas ínfimas, já nos títulos de seus livros é possível identificar este interesse recorrente: Gramática expositiva do chão (1966), O livro das ignorãças (1993), Livro sobre nada (1996), Retrato do artista quanto coisa (1998), Tratado geral das grandezas do ínfimo (2001), entre outros.

3 Os poucos objetos presentes no pequeno quarto do escultor suíço Alberto Giacometti, conforme documentário apresentado dentro da exposição sobre o artista na Pinacoteca do Estado de São Paulo em 2012.

4 Samuel Beckett, “Poèmes” (1978) in DIDI-HUBERMAN, Georges. Ser Crânio: Lugar, contato, pensamento, escultura. Belo Horizonte: C/Arte, 2009. “Georges Didi-Huberman vai construindo, assim, uma teoria da escultura, cujo enfoque não é mais o objeto, mas a espacialidade, o lugar por onde a escultura passa” (p. 14). Ainda: “… surgem não exatamente coisas, não exatamente espaços… uma escultura que transforma os objetos em sutis atos de lugar, em ter-lugares” (p.45). Texto publicado em 1997 no catálogo da exposição de Giuseppe Penone no Musée d ́Art contemporain de Nîmes.

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