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Objetos/Oblíquos
Luciano Zanette
SESC Osasco
Visitação até 31 de dezembro de 2015


A exposição Objetos/Oblíquos do artista gaúcho Luciano Zanette, radicado em São Paulo desde 2008, dá continuidade à sua produção escultórica de mais de quinze anos com referências a objetos do mobiliário cotidiano atravessados conceitualmente por questões indicativas de modos de uso e eficiência, hábitos culturais brasileiros, ações de descanso e trabalho, situações de relações e confrontamentos, assim como interdições da aparente funcionalidade usual dos objetos e com isso gerando possíveis provocações no sentido de buscar evocar memórias corporais de experiências pessoais sensíveis do público. A mostra Objetos/Oblíquos foi idealizada para ocupar os espaços abertos do Sesc Osasco, no ano de 2015, sendo composta por nove (09) esculturas em metal (aço e bronze).


Luciano Zanette é artista visual nascido em Esteio (RS), fez sua formação acadêmica em artes visuais no Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Atualmente vive e trabalha na cidade de São Paulo. Onde ministra aulas de linguagem tridimensional e desenho no Centro Universitário Belas de São Paulo; ABRA Escola de Arte e Design cursos de desenho, pintura e história da arte e design; também ministrou cursos sobre escultura contemporânea no Museu da Imagem e do Som (MIS). Ganhou dois prêmios Açorianos (RS) em 2007 por sua exposição Mobiliário Melancólico no MACRS. Desde meados dos anos noventa tem mostrados regularmente seus trabalhos de escultura, instalação, site specific, desenho e pintura em instituições culturais de São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Florianópolis, Curitiba, João Pessoa, Recife, Natal, Brasília, Ribeirão Preto, Belém, Itália e EUA. Possui obras nos acervos do MACPR, MACRS, MARGS, FVCB.


Luciano Zanette
Esteio, RS, 1973
Vive e trabalha em São Paulo

Bacharel em escultura e mestre em poéticas visuais pelo Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do
Sul (UFRGS), especialista em Design para Movelaria pelo Centro Universitário SENAC de São Paulo. Em 2007 recebe
dois Prêmios Açorianos: Artista do Ano e Destaque Escultura pela exposição individual Mobiliário Melancólico (2006).

Exposições individuais

Objetos/Oblíquos, SESC Osasco (São Paulo, 2015)
Lugares de Estar, ABRA (São Paulo, 2015)
Que a Distância nos Guarde, Galeria Virgílio (São Paulo, 2012)
Passante, Projeto Vitrine Efêmera (Rio de Janeiro, 2010);
Torreão (Porto Alegre, 2008)
Desenhos de Gabinetes, Espaço Piloto–UnB (Brasília, 2008); MunA (Uberlândia, 2007)
Mobiliário Melancólico, MACRS (Porto Alegre, 2006)
Desvãos, Centro Cultural São Francisco (João Pessoa, 2002)
Habituário, Galeria Iberê Camargo – Usina do Gasômetro (Porto Alegre, 2001)
Descertezas, Casa de Cultura Mario Quintana (Porto Alegre, 2001)
Ausente, Centro de Artes Visuais Tambiá (João Pessoa, 2000)

Coletivas selecionadas

TRIO Bienal – Bienal Tridimensional Internacional do Rio (Rio de Janeiro, 2015)
Um Salto no Espaço, Fundação Vera Chaves Barcellos (Viamão, 2014)
Volúpia Construtiva, Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (Porto Alegre, 2014)
BR 2013,  Galeria Virgílio (São Paulo, 2013)
ENTRE, Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (Porto Alegre, 2013)
Cor, Cordis, Museu de Arte Contemporânea do Paraná (Curitiba, 2013)
Espelho Refletido: O Surrealismo e a Arte Contemporânea Brasileira, Centro Cultural Hélio Oiticica (Rio de Janeiro, 2012)
Nova Escultura Brasileira, Caixa Cultural (Rio de Janeiro, 2011)
Outra Relação, Museu Brasileiro da Escultura (São Paulo, 2011)
Octopus Garden, Central Galeria de Arte Contemporânea (São Paulo, 2011)
Proposição, Galeria Luciana Caravello Arte Contemporânea (Rio de Janeiro, 2011)
Salão Paranaense: Uma Retrospectiva, Museu Oscar Niemeyer (Curitiba, 2011-12)
Programa Rumos Visuais, Itaú Cultural (São Paulo, Curitiba e Rio de Janeiro, 2009-2010)

À Prova do Corpo

Levantar. Andar. Sentar. Deitar. Nossos cotidianos são ritmados essas por ações aparentemente banais e inócuas, que incessamente se reiteram, se sucedem seguindo a pulsação do relógio e o decorrer dos dias. Por trás dessas repetições singelas se dissimulam uma coreografia normatizada por nossa sociedade que ensaiamos desde crianças. O mobiliário do dia-a-dia tem um protagonismo central nessa dança uma vez que ele sugere sub-reptícias etiquetas corporais. A adaptação e uniformização das posturas pelo mobiliário cotidiano é precisamente uma das premissas fundamentais na obra de Luciano Zanette.

De fato, o artista evidencia as estruturas de poder e submissão por trás das tipologias de mobiliário mais difundidas, que funcionam como ferramentas de contenção e adequação do corpo individual às normas e padrões de um corpo coletivo. Esse interesse já é latente em suas primeiras instalações, nas quais reconfigurava peças encontradas de mobiliário cotidiano investidos com uma certa carga afetiva.

Progressivamente, essa reflexão acerca dos condicionamentos insinuados por esses móveis foi se depurando e o artista começou a trabalhar com uma ideia mais abstrata e gráfica desse mobiliário em estruturas compostas e vazadas como as esculturas recentes do conjunto presente na mostra Objetos/Oblíquos. Apesar de tomarem forma de estruturas simplificadas e geometrizadas, as esculturas se referem às tipologias reconhecíveis de móveis que povoam nossas casas e escritórios: mesas, cadeiras, camas, entre outros. As composições de Zanette muitas vezes apresentam algum eixo deslocado ou um elemento que impossibilita a sua utilização, frustrando o apelo físico que esses móveis em tamanho real suscitam. É desnorteando o espectador, impossibilitando o uso desses objetos, que o artista aponta para nossas respostas corporais e automatismos escondidos diante desse mobiliário, assim como eles reverberam em valores e princípios difundidos na sociedade.

A cadeira usual, objeto recorrente no trabalho de Zanette, por exemplo, corresponde a um modo de sentar própriamente ocidental: o que implica uma postura na qual o tronco forma um ângulo reto com as coxas e, por sua vez, com os joelhos. No entanto, se trata apenas de uma entre outras fórmulas que existem em outras partes do mundo como sentar ajoelhado ou ainda de pernas cruzadas. Além do mais, essa cadeira, é sintomática da condição atual de crescente inatividade física e, por extensão, dos padrões de passividade que progressivamente imprime nos indivíduos [i].

Zanette se refere a essa contenção mental suscitada pela contenção física induzida pela posição sentada em Inscrição, escultura na qual uma cadeira de tamanho real parece contida em uma estrutura que denota um teto. A escultura sugere, por um lado, o conforto de uma casa, mas por outro, também um certo conformismo que essa comodidade pode ocasionar. Esse conforto domiciliar e sua relação com uma inércia conformista também é evocada em Estruturas do Hábito, que consiste em uma estrutura de aço vazada que resulta em um conglomerado de diferentes móveis: uma cama, cadeira, uma porta e um genuflexório. O espectador pode adentrar esse espaço da esfera privada, do quarto e da fé individual. O título é indicativo dos diferentes entendimentos do termo “estrutura” que permeiam os trabalhos do artista: a própria estrutura da escultura, a casa como metáfora de uma estrutura familiar, religiosa e social e, por fim, as estruturas comportamentais que esses diferentes agentes privilegiam.

A escultura Quatro Poderes é sintomática tanto da continuidade da reflexão sobre as diferentes implicações por trás do sentar e da cadeira, quanto de um direcionamento explicitamente político no trabalho recente de Luciano Zanette. A escultura consiste em quatro cadeiras equilibradas por uma de suas pernas é mais longa do que as outras. Cada perna prolongada é levemente inclinada de maneira a que as pernas das diferentes cadeiras se cruzem em um ponto, possibilitando um equilíbrio. Desta maneira, por estarem em altura e inclinadas, o uso das cadeiras fica impossibilitado. A altura e dificuldade de acesso remetem à história dessa peça de mobiliário, que originalmente e durante muito tempo era atribuída a figuras de poder político ou religioso, antes de se tornar uma peça standard de mobiliário no século XIX [ii]. As quatro cadeiras inacessíveis, que representam os poderes executivo, legislativo, judiciário e o da mídia, se apoiam uma na outra em uma configuração frágil, mas que ainda assim mantém o seu equilíbrio.

Para além das camadas e leituras políticas do trabalho recente de Zanette, dessas estruturas frias norteadas pelo que parecem linhas de força matemáticas e impessoais, parece sempre se desprender uma certa melancolia. De fato, as estruturas parecem suspensas em um estado de desequilíbrio, sem nenhum resquício de individualidade e na constante iminência da queda do conjunto. Talvez porque essas estruturas que ditam suas próprias regras resistem as resiliências e organicidades do corpo de cada indivíduo e que, em última instância, foram elaborados à prova dos corpos que as habitam.

Olivia Ardui
2015

[i] Peter Opsvik, Rethinking Sitting, New York, 2009. Capítulos: Our passive Present e Post-industrialized societies (p. 14-15).

[ii] Idem. Capítulo: The chair and the authority (p. 22-23).


Luciano Zanette, Estruturas do Hábito, 2015, aço e pintura eletrostática, 190 x 190 x 160 cm. Foto Filipe Berndt

Luciano Zanette

Conformismo

2015

aço e pintura eletrostática

100 x 100 x 90 cm

Exposição Objetos/Oblíquos
SESC Osasco

Foto Filipe Berndt

Luciano Zanette

Estruturas do Hábito

2015

aço e pintura eletrostática

190 x 190 x 160 cm

Exposição Objetos/Oblíquos
SESC Osasco

Foto Filipe Berndt

Luciano Zanette_Alvor de Equívocos_2005_vista frontal_

Luciano Zanette

Alvor de Equívocos

2005

madeira, lâmpadas, cabos, cerâmica, borracha, desenhos

dimensões variáveis

MAC RS

Luciano Zanette_Alvor de Equívocos_2005_vista lateral_

Luciano Zanette

Alvor de Equívocos

2005

madeira, lâmpadas, cabos, cerâmica, borracha, desenhos

dimensões variáveis

MAC RS

Capa_

O que resta de um encontro1:
Estâncias, distâncias, passagens

Para este lado do infinito, turvo finito, os cantos vazam, os cantos ocam, desprotegem, desguardam corpos.
Não confinam, confins.
Então…
Que a distância nos guarde

Descontinuidades, os planos não funcionam, as linhas não cercam. Marcam, mas falham, o olhar atravessa. O corpo através. Sem descanso. Estar só acompanhado. Desacompanhado. Só. Nhado. Des. Enhado. Separar sílabas, se parar fica. Então, sem parar, como se fraccionasse o átomo em palavra, pequenas experiências podem ocorrer, ou correr, escapar do nome, porque o nome prende.

Eu quero muito, o mínimo. Tenho grandiosidades com o pouco. Aqui sou o meu limite sobre Manoel2, aqui sou um termômetro e duas estátuas egípcias3. Madeira de construção. Linha de rumo. Depois farei melhor. Depois faço. Depois, depois, depois…

Estas peças como uma discrição (austeridade, qualidade de discreto, reservado) – descrição (traçado, delimitação, definição, exposição), descrever – descrer, ver. Ver para descrer. Ver para descrever, escrever. Desescrever, desver. Escrever para esquecer, e assim abrir espaços (na cabeça). Crânio último abrigo4. Lugar mínimo. Lugar de estar.

Para este lado do finito, descontinuidades. As paredes caem, as fronteiras linha. Passagem aberta, perigos possíveis. Te quero aqui para sempre… agora é sombra de desejo. Bandeira a meio-pau. O que resta deste encontro é sombra de meio tom. Absoluta finitude. Amargor escuro. Sombra dos dias, angústia das noites. Mesa jaula.

Breuer, Rietveld. A distância nos grade. Ofensas brandas, reverências ao vazio. Nenhum sonho é permitido aqui. Aqui eficiência. Não sou aqui. Me falta potência de ser aqui. Me falta.

Eu declino. Sou mais as desexatidões das casas de Ouro Preto. Pisos em declive, aclive, parede torta, porta morta. Camas vazias. Lugar Fantasma. Sombras em lombas, sombras queimadas. Coisa de Sombra. Caixas vazias. Vazios de crânio. Órbitas vazias. Medi- das de morte. Vazios de caixa, fins de saída. Continente, conforto, confronto. Objeto de contorno. O canto de espaço que me envolve. Dimensões do estar. O lugar de estar. Estou aqui. Não estou aqui. Eu passo.

Declino da eficiência, da produção em série, das lições de campeão. Rever valores.
Declino das estruturas de controle social. Declino do permitido, do não permitido. Consciência de norte, norte, norte. Molduras vazias, problemas portáteis. Monocromossomias. Não quero afirmar o mito de essência ou destino. A cultura é a régua, a arte a potência. A matemática vai salvar o mundo, a arte vai torná-lo suportável.

Liberdades condicionadas. Desencontros, desconversas, desconfortos. Cruzamentos, desolhares, deslocamentos, desolamentos, isolamentos. Contornos. Objeto lugar. Móvel-lugar. Casamínima.
Habitar o móvel.
Ainda Melancolia.

Deleuze nos livre!
Demorei para chegar aqui…
no meio.

Luciano Zanette
2012

Escrito montado entre meados de junho e agosto de 2012 SP, pensando nos trabalhos da primeira exposição individual na galeria Virgilio, em 12 de setembro de 2012 (a partir de anotações precedentes que acompanham desenhos de projetos). As notas de rodapé foram incluídas depois do escrito já constituído, para propiciar uma leitura mais ampla, e para não deixar de indicar leituras e contatos com autores fundamentais que permitiram a chegada neste ponto.

Notas

1 Proposição apresentada na forma de pergunta nas aulas do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais do Instituto de Artes da UFRGS por Edson Luiz André de Sousa (escritor, pesquisador, psicanalista e professor da pós- -graduação em psicologia social e institucional da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e do PPGAV do Instituto de Artes da UFRGS). Aqui proponho uma possível contribuição (reverberação) sobre a questão.

2 Manoel de Barros, poeta brasileiro. Manoel escreve sobre as coisas ínfimas, já nos títulos de seus livros é possível identificar este interesse recorrente: Gramática expositiva do chão (1966), O livro das ignorãças (1993), Livro sobre nada (1996), Retrato do artista quanto coisa (1998), Tratado geral das grandezas do ínfimo (2001), entre outros.

3 Os poucos objetos presentes no pequeno quarto do escultor suíço Alberto Giacometti, conforme documentário apresentado dentro da exposição sobre o artista na Pinacoteca do Estado de São Paulo em 2012.

4 Samuel Beckett, “Poèmes” (1978) in DIDI-HUBERMAN, Georges. Ser Crânio: Lugar, contato, pensamento, escultura. Belo Horizonte: C/Arte, 2009. “Georges Didi-Huberman vai construindo, assim, uma teoria da escultura, cujo enfoque não é mais o objeto, mas a espacialidade, o lugar por onde a escultura passa” (p. 14). Ainda: “… surgem não exatamente coisas, não exatamente espaços… uma escultura que transforma os objetos em sutis atos de lugar, em ter-lugares” (p.45). Texto publicado em 1997 no catálogo da exposição de Giuseppe Penone no Musée d ́Art contemporain de Nîmes.

convite

Que a Distância nos Guarde

Luciano Zanette

Escultura Pintura Desenho

Estrutura e corpo

A presente mostra de Luciano Zanette trata da relação do espaço com o corpo. E o espaço, tal como ele se revela nos trabalhos tridimensionais, não possui uma dimensão pública, ao contrário, trata-se do campo privado. As obras se aproximam de ambientes domésticos fundidos a móveis como mesa, cadeira ou cama. Entretanto, as referências ao mobiliário são indiretas. Nenhum dos trabalhos poderia ser usado para apoiar, sentar ou deitar. Apesar do primoroso acabamento em madeira, eles se afastam do campo do design e não possuem qualquer utilidade. O artista desconstrói os objetos e formas cotidianas com as quais estamos acostumados e reinventa uma espécie de mobília sem função que se conecta de modo franco e aberto ao espaço circundante.

Todas as esculturas possuem linhas retas e formas geométricas com clara referência às vanguardas construtivas. A diferença central é que enquanto os concretistas, por exemplo, almejavam um futuro melhor, um mundo mais justo, e viam nas formas regulares e na própria razão a possibilidade de alcançar a utopia, o trabalho de Zanette é mais sombrio e avesso a utopias. Longe da atmosfera solar e otimista de algumas das vertentes construtivas, suas peças possuem tons mais escuros e certa morbidez ressaltada por pequenos crânios esculpidos e pintados. Não há nesses trabalhos qualquer aposta num mundo melhor, mas a percepção de que sobre o presente e o futuro pairam nuvens escuras e pesadas.

Num primeiro olhar, as pinturas se assemelham às tradicionais naturezas-mortas do gênero vanitas, que com frequência apresentam crânios. Comuns nos séculos XVI e XVII, especialmente no norte da Europa e nos Países Baixos, as pinturas no estilo vanitas são símbolos da brevidade da vida e da consciência da inevitável chegada da morte, ou seja, de que tudo apodrece e vira pó. Elas são como lições de moral que nos lembram que os prazeres mundanos, as vaidades, são passageiros e que o apego aos bens materiais, assim como o abando- no da vida espiritual e contemplativa, não nos leva a nada. Mas mesmo que exista algo de sinistro na mostra de Zanette, suas pinturas estão distantes dos significados morais das vanitas. A relação direta entre as pinturas e as esculturas nos proporciona uma compreensão de que o crânio e os ossos são carcaças tão estruturais para o corpo quanto as madeiras que sustentam a peças são para os trabalhos tridimensionais.

As formas vazadas, abertas, que permitem que o olhar as atravesse completamente, guardam uma proporção em relação ao corpo humano a ponto de estimular uma aproximação táctil e corporal. Trata-se da mobilização de uma espécie de memória corporal que está implicada em cada uma das peças. E mesmo que a figuração da totalidade do corpo esteja fora da exposição, a noção de corpo se revela a partir do contato com o corpo do público visitante.

A limpeza e o silêncio visual presentes na montagem da mostra criam um jogo entre ausência e presença do corpo. É como se cada uma das peças exigisse um corpo para se relacionar. Mas essa relação não é harmônica, participativa, ao contrário, as peças tridimensionais não atraem completamente o corpo do visitante, na verdade também o repele, uma vez que não são ergonômicas nem feitas para usar. Os trabalhos pedem um envolvimento corporal ao mesmo tempo em que impossibilitam isso. É dessa contradição que surge o estranhamento e também grande parte da força desses trabalhos.

O artista desenvolve e constrói manualmente cada um dos trabalhos. E eles surgem de um contato com as dimensões de seu próprio corpo. Mas isso não impede a incontornável relação com o corpo de quem os contempla – na verdade as peças requerem esse vínculo. Sem nunca tratar o corpo como uma coisa ou um objeto, os trabalhos de Zanette insinuam a presença de um corpo invisível, que não pode ser representa- do, mas que é pressuposto e constitutivo das peças, elas sim completamente visíveis. Partindo da escala humana, o artista nos mostra que há uma íntima ligação entre espaço e corpo, a ponto de um não existir separado e isolado do outro. Suas esculturas nos revelam que o contorno das salas e espaços que habitamos podem ser sentidos como análogos ao contorno do nosso próprio corpo.

Cauê Alves
2012

pág 22-23_

Luciano Zanette

O Que Resta de Um Encontro

2012

madeira, pigmento e cera

185 x 202 x 202 cm

foto Jerri Rossato Lima

pág 16-17_

Luciano Zanette

Desobrigação das adaptações passageiras

2012

madeira, pigmento e cera

257 x 90 x 90 cm

foto Jerri Rossato Lima

pág 11_

Luciano Zanette

Para um

2012

madeira, pigmento e cera

180 x 42 x 45 cm

foto Jerri Rossato Lima

pág 06 e 32__

Luciano Zanette

Obstáculo defensivo entre si e o perigo

2012

madeira, pigmento e cera

90 x 72 x 72 cm

foto Jerri Rossato Lima

pág 20 fb_

Luciano Zanette

Meio-pau

2012

madeira, pigmento e cera

257 x 90 x 90 cm

foto Jerri Rossato Lima

Luciano Zanette Barreira Militar Rietveld - BMR1_2012_foto Nadja Kouchi_

Luciano Zanette

Barreira Militar Rietveld (BMR1)

2012

madeira

foto Nadja Kouchi

Exposição Oscilações Recíprocas
Galeria Quarta Parede – São Paulo

Oscilações Recíprocas

A mostra “Oscilações Recíprocas” dos artistas Alexis Iglesias, Luciano Zanette e Marcelo Armani trás como investigação processos distintos e híbridos, intento que habita o argumento de provocar e perverter noções preestabelecidas da história da arte.

Alexis Iglesias expõe pinturas que por sua vez combinam objetos díspares do cotidiano com elementos de naturezas distintas como, por exemplo, um ventilador a um inseto ou ainda a um “lustre”, acometidos por verniz. Noutra pintura mostra objetos que se unem entre côncavos e convexos, nesse fluxo de absorção e devolução, formados sob a ideia de oscilação. Em ação homeomorfa revela um universo que se afeta por diálogo com os outros dois artistas da exposição.

Luciano Zanette procurando o lugar do corpo cita-o e o constrói como ausência em suas esculturas e instalações. Em uma de suas esculturas faz uma fusão da Military Chair, que tem o elemento de “barricada” junto à perna de estrutura de sua obra cadeira, parte que hesita por fixar-se. Ele reflete, a propósito, sobre aqueles semelhantes constructos, pintados por Alexis, onde o corpo ausente e vazio penetra, por via da subjetividade, toda pintura. Dedica-se à ergonomia das formas, advindas da mesma memória do corpo, assim como nas obras de Alexis.

Marcelo Armani no entanto gera sons que, por ocasião, trabalham igualmente sob o conceito de memória e ausência de seus objetos tridimensionais em ambiente intimista e de baixa luminosidade. Paralisados no tempo gavetas suspensas, retiradas de criados-mudos, transportam lembranças de fatos passados e recentes, de imagens, escritos e de outros objetos que as fendas não conseguiram carregar. Esses sons manifestados fazem as vezes dessa memória, agora formada por peças sonoras.

Seja qual for a modalidade nessa exposição, pintura, escultura ou instalação alcançam juntas, num espaço em consonância, uma permanência gradual da forma física e notável, que advém do século XX, um labirinto de sensações que parte de uma abertura como oferenda ao “pélago”, um universo aberto, convite a penetrar o feitio da forma por meio dos mensurados interstícios, que derivam do ser humano e suas relações na ação de convertê-los em coisas. Essência e memória reconfiguram o lugar desses objetos insólitos.

Essas aberturas funcionam como prolongamento do corpo, pois nelas subsistem constructos, sejam nas cadeiras, nas gavetas ou nos objetos pictóricos de Alexis. Nessas obras o formato envolve a presença da matéria como também seu desenho quase “altiplano”. Acontece que o ponto sinuoso entra em ação quando adentramos essas formas vazadas de conteúdo utilitário, como num labirinto.

No mito do Minotauro (que por Teseu se diluiu em vasta medida) a ideia de Labirinto se liga à representação da mente. Teseu foi o responsável por dar aos homens a oportunidade de livrar-se do “selvagem”. A irracionalidade, a “loucura”, próprias da arte, conquistam nessas obras um plano em potência, apoderando-se desses processos, onde o pensamento, através de seu emaranhado, fez conduzir a desrazão ao seu retorno.

Nesse contexto cada trabalho exposto suscita no outro essas relações de reciprocidade sensorial, que reage conforme recebe essas conexões, afinando-se a uma malha apurada de subjetivações e trânsitos intermidiáticos. Constituindo-se num espaço de mútuas reverberações.

Marta Strambi
Artista e Doutora em Artes
outubro de 2012

CONVITE TORREÃO_LUCIANO ZANETTE

Luciano Zanette_Torreão_2008

Luciano Zanette

Intervenção Torreão

2008

madeira e esmalte sintético

90 x 400 x 400 cm

Torreão

foto Fábio Del Re

desenho-2002

Luciano Zanette

sem título

série Mobiliário Melancólico

2002

nanquim e aquarela sobre papel

20 x 30 cm

Exposição Mobiliário Melancólico

MAC RS

sublimador

Luciano Zanette

Sublimador 

série Mobiliário Melancólico

2006

madeira e laca

80 x 50 x 65 cm

Exposição Mobiliário Melancólico

MAC RS

Luciano Zanette – Passante no Projeto Vitrine Efêmera – Curadoria Osvaldo Carvalho – Abertura 9 de outubro de 2010 – ESTUDIO DEZENOVE – Travessa do Oriente 16A – Santa Teresa – Rio de Janeiro

Efêmeros/Passantes

Ao observarmos a obra Passante detém-nos a transposição que aplica sobre o espaço expositivo. Algo peculiar está na lógica desse ato que surpreende o olhar antes mesmo de alcançar nossa consciência.

Saindo da vitrine e seguindo para o calçamento, suas linhas de madeira crua se erguem frente ao vidro e desenham um novo horizonte que se contrapõe ao declive estrutural que fica no interior da vitrine. Sendo peça única possui também o desejo de ter outro lado, outra possibilidade que se arrasta sorrateira e desenvolve um novo gesto: se deixa verdadeiramente exposta ao público e às intempéries.

Como um animal que se estica pelas grades de sua jaula em um zoológico, Passante cruza os limites do cubo branco e se entrega ao afago direto do espectador, do eventual contato físico, e também da chuva, do calor, do frio, da solidão.

Diante da impossibilidade de mudar o lugar do contexto Luciano Zanette intenta mudar o contexto do lugar. Traz ao convívio dos que por ali transitam a presença viva de sua obra. Não mais um lugar privilegiado da visão, a vitrine passa também a interagir com o caminho de passagem. Justamente a reconstrução de uma nova situação espacial proposta pelo artista nos leva a pensar sobre o que propunha Thierry de Duve quanto aos aspectos de uma arte específica para um lugar em seu célebre texto Ex-Situ de 1989. Pautado em três categorias, lugar, espaço e escala, de Duve alega que a recriação do site pelo artista pressupõe a retirada de uma delas para que em efeito inverso seu trabalho ganhe nova potência, nova dinâmica. Em Passante encontramos então uma nova postura quanto ao espaço de referência da vitrine que é expandida para além dos domínios de contenção da obra de arte.

O que é percebido e vivido no projeto apresentado é a transformação da realidade estabelecida. A densidade simbólica de um “passante” a outro é o que aproxima conhecimentos diferentes e diferenciados pela própria condição transitória de seus corpos (diga-se, daquele que passa). A vitrine é efêmera tanto quanto seus observadores. Nada é o mesmo, tudo se modifica. E não há volta. Entender que o Passante é provido de uma carga artística que supera a latência implícita de suas partes em madeira passíveis de ser um apoio a quem caminha ao seu lado é possuir um saber que compreende arte. Tal possibilidade é antes ponto de partida para desvelar cegueiras que condição no trabalho de Zanette. Todo o planejamento do artista para a execução de sua peça nos mostra uma atitude que procura conceber o espaço da vitrine permeando representações características de sua própria gênese desde seu Mobiliário Melancólico[1].

Contudo, qualquer que seja nosso desejo em revelar de imediato o que ali está exposto torna-se frustrante uma vez que a única certeza que temos de palpável é o devir da obra, é o que ela ainda nos dirá quando quietos e compassivos pensarmos que talvez houvesse outra intenção, quem sabe menos retórica e mais intuitiva, de despojar a arte da razão e entregá-la de bom grado ao consumo de olhos ligeiros que guardarão na memória uma passagem, um passante, um passado.

Osvaldo Carvalho
Niterói, 2010

[1] Mobiliário Melancólico: Inflexões poéticas sobre objetos incômodos. Título da dissertação do artista para mestrado pela UFRGS, 2007. Consulte http://hdl.handle.net/10183/10844.
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